21 julho 2008

Um pouco de literacia financeira


Existe uma velha máxima que diz que "os bancos só emprestam dinheiro a quem não precisa dele". No caso dos cartões de crédito o lema será "Só emprestamos dinheiro a quem sabemos que não conseguirá pagar". Confusos? Explico.

Neste episódio do Boston Legal, aborda-se o problema das estratégias comerciais das empresas de cartões de crédito nos EUA. Resumidamente, as empresas de crédito vivem da cobrança de juros. Os juros podem ser devidos à própria natureza do plano de crédito ou devidos a incumprimento. Os cartões de crédito a "0% de juro" estão orientados para conseguir dinheiro em caso de incumprimento e esta é a única fonte de lucro significativa. Os clientes cumpridores - denominados deadbeats - são clientes que não interessam pois têm baixa rentabilidade. Os clientes honestos mas com elevado risco de incumprimento são os mais apetecidos. Em letras pequeninas, o contrato prevê taxas de juro elevadas a partir do momento em que haja um milésimo de segundo de atraso no pagamento de uma prestação ou em situações em que o cliente aumente o seu risco de incumprimento (exemplo: pedir uma simulação de empréstimo para comprar um carro). Aumentando a dívida, as hipóteses de resolução da mesma aumentam gerando mais atrasos de pagamento, aumentando a dívida, etc... Resultado, o cliente "casa-se" com o cartão de crédito por uns bons tempos. No referido episódio acusa-se o lobby dos cartões de crédito de ter conseguido uma legislação de falência que dificulta as pessoas livrarem-se destas situações.

Negócio perverso este que vive da ignorância e irresponsabilidade dos clientes. Por isso, urge a informação e responsabilização do público. Só um público informado e responsável pode dar cabo desta lógica de negócio.

2 Commets:

Blogger alf said...

Belo post. Encontras cada coisa...

mas é para isto que os MBA servem. Os tarifários e estratégia do Sapo também eram pensados em base semelhante. O objectivo é maximizar os lucros e nenhuma outra consideração interessa.

Mas o que me impressiona é que uma grande quantidade de pessoas não têm o mais pequeno escrúpulo nisto. A todos os niveis, desde os que vendem nas lojas, aos que trabalham em esquemas telefónicos e até aos altos administradores a quem ém conferido o poder de definir os seus próprios ordenados e privilégios.

Parece que o único pecado é não maximizar as possibilidades de ganhar dinheiro no curto prazo.

Mas as pessoas vigarizam também do outro lado. Conheço histórias do que vigarizam seguros, por exemplo.

Está visto que a «honestidade» de muitas pessoas é mera consequência das penalizações. Necessidade de sobrevivência?

De qualquer maneira, a conclusão é que seria necessário que o sistema adoptasse medidas contra isto. Mas isso só pode acontecer se existir um poder revolucionário, não comprometido. Um Cromwell. Esperar que os que mais beneficiam com a ausencia de regras as introduzam é algo ingénuo...

1:49 da manhã  
Blogger Tarzan said...

Eh pá! Isso dos revolucionários é um bocado como os cavaleiros andantes. Só é bonito nos livros. Na prática o resultado não é nada "saudável".

E dar logo o exemplo do Cromwell: um ditador puritano. Em nome de boas intenções e de varrer o mal do seu país, fez-se muita asneira e muito "mal" também.

A literacia financeira é mito importante. Em Inglaterra, por exemplo, ela é bastante elevada. Conheço malta que corre o país a vender produtos financeiros e fica parvo a falar com eles. Sabem mais do que muitos banqueiros.

9:57 da tarde  

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