27 fevereiro 2008

A TV pública(?)


O blogue Do Fundo da Comunicação pergunta: Deverá a RTP ter publicidade ou não?

A RTP é actualmente um caso de parceria Estado/Privados. Mesmo nos canais de rádio onde, teóricamente não há publicidade, esta a aparece... encapotada. Isto torna a actuação da estação algo... como hei-de dizer?... Promíscua. Eu sou apologista de sistemas tendencialmente puros, assumidos. Ou se opta por um canal inteiramente público - sem preocupações comerciais - ou se assume que não vale a pena gastar recursos públicos para suprir necessidades que o sector privado pode suprir com menores custos.

A televisão do Estado, em especial o Canal 1, não está a servir para colmatar as falhas de mercado mas sim para oferecer o que o mercado já proporciona sem ir ao bolso do contribuinte ("extorquido" seria uma expressão mais feliz...). Logo, não está a criar nenhuma mais valia para a sociedade e está a desperdiçar recursos. Ao concorrer, em vez de proporcionar programação que o mercado não produz, também o faz deslealmente uma vez que tem sempre a almofada do orçamento de Estado. Na minha opinião, a abolição da publicidade na TV pública terá de ser sempre sempre condicional à mudança de orientação da programação. Isto também válido para a rádio onde já não há publicidade mas em que, em muitos casos, a estratégia é de concorrência com os privados. Faz algum sentido que haja playlists na Antena3? Programas de discos pedidos?!?!?
Já a Antena2 creio que presta um verdadeiro serviço público pese embora suspeite que caso se extinguisse esta estação, logo apareceria uma rádio privada a fazer algo semelhante.

A opção por uma TV inteiramente pública também levanta outros problemas e dilemas. Há que definir o que é "serviço público", definir e identificar as "falhas de mercado", definir a estratégia de actuação e determinar qual a quantidade de recursos adequada para implementar a estação e a programação. Sem esquecer que se deverá assumir como dado adquirido que, sendo uma estação do Estado, estará ao serviço de quem o comanda, ou seja, o executivo em funções. É preferível um canal estatal (não monopolista) - ao estilo da TV salazarista/marcelista - que assumidamente serve o Governo que a situação actual em que essa subserviência é (mal) dissimulada. Seria mais transparente.

Com todos estes constrangimentos, dilemas e perigos que a opção pelo público coloca, acho que ainda assim prefiro a terceira opção: nenhum canal público de TV. Acabava-se de vez com o dilema da publicidade.

2 Commets:

Blogger alf said...

Quando não há um canal público, surge outra coisa: o Estado paga aos privados programas de serviço publico. Como isto se torna uma fonte importante de receitas para os privados, este passam a adular o governo.

Como o número de canais de informação é muito pequeno, não chega para estabelecer um sistema concorrencial. Se nenhuma intervençaõ do estado existir, os canais privados podem fazer cartel a favor de determinados interesses privados

Ora acontece que nós vivemos num asociedade orientada pelos media. as pessoas agem consoante a informação veiculada pelos media. É por isso que a "Mentira Conveniente " funciona. é por isso que o emidio Rangel disse que tv podia vender presidentes da republica da mesma maneira que vendia sabonetes. A verdade dessa afirmação ficou provada quando a TVI vendeu um presidente para o Benfica em duas semanas, derrotando o Vale e Azevedo.

Por isso, é preciso uma intervençao do Estado e eu ainda prefiro a solução do canal publico, porque tem a vantagem de deixar os privados independentes do estado

Mas o canal publico tem de ter audiencias ou não serve para nada. A forma de conseguir isso é tornar as suas receitas dependentes destas. A melhor forma é usar a publicidade como fonte de receita, mesmo que através de um esquema enviezado (pagamento da dívida) como o da RTP.

7:39 da tarde  
Blogger Tarzan said...

«prefiro a solução do canal publico, porque tem a vantagem de deixar os privados independentes do estado»

Há outra forma: é o Estado abster-se de querer definir conteúdos televisivos. Nos EUA há canais públicos? Se há, não se nota. Há falta de pluralidade num meio esmagadoramente privado? Não creio.

«Mas o canal publico tem de ter audiencias ou não serve para nada.»

Não deixando de concordar, acho que a ideia tem dois "senões". 1) O Estado devia preocupar-se em colmatar falhas de mercado - produzir o que o mercado não quer mas o Estado entende que é importante. 2)Para ter audiências o Estado terá de se focar em captar público que não vê televisão em vez de os ir buscar aos privados. Caso contrário é concorrência desleal uma vez que a TV tem financiadores menos "exigentes" (o dinheiro não é deles) que os privados.

9:29 da manhã  

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